Num cenário que combina um bull market inesperado com a tensão de um ano eleitoral, é hora de voltar ao “beabá” e investir em bancos e utilities, diz André CaldNum cenário que combina um bull market inesperado com a tensão de um ano eleitoral, é hora de voltar ao “beabá” e investir em bancos e utilities, diz André Cald

“Voltamos ao beabá de bancos e utilities”, diz André Caldas, da Springs Capital

2026/01/24 01:41

Num cenário que combina um bull market inesperado com a tensão de um ano eleitoral, é hora de voltar ao “beabá” e investir em bancos e utilities, diz André Caldas, o fundador e CIO da Springs Capital. 

É uma carteira que “se segura se o presidente atual ganhar e se valoriza se um candidato pró-responsabilidade fiscal vencer,” ele disse ao Brazil Journal.

Mas operar apenas na ponta comprada não é a maneira de ganhar dinheiro num mercado instável como o brasileiro, e com juros estruturalmente altos, na visão do gestor. 

Seu principal fundo – um equity hedge que ele define como multiestratégia – combina long and short com operações de arbitragem ligadas a eventos como fechamentos de capital. “Vamos ajustando de acordo com os ciclos de mercado.” 

Caldas fundou a Springs em abril do ano passado ao lado de Albert Munck, um ex-banqueiro de investimentos do Santander e ex-sócio da Miles Capital.

Entre 2006 e 2020, foi gestor das estratégias long and short do Itaú e do Credit Suisse e portfolio manager do Copernico, um hedge fund de Buenos Aires.

Em 2021, fundou a Clave Capital, vendida para o BTG em 2024. Dois fundos da Clave – o equity hedge e o long bias – migraram para a Springs. Ambos voltaram a ter bons retornos no ano passado depois de inícios complicados. 

O equity hedge entregou 21,4% em 2025, após render 9,5% em 2024 e 7,2% em 2023. O long bias teve um rendimento de 28,5% no ano passado – em 2024, perdeu 13,4%; e de 2021 a 2023, rendeu entre 4% e 8%.

Segundo Caldas, o mandato do long bias mudou em julho de 2025: o fundo abandonou as posições macro e passou a replicar os principais investimentos do equity hedge, mas com um viés direcional de Bolsa. 

“Nosso core é a arbitragem, não é ganhar quando o mercado sobe,” diz ele. A casa, que tem R$ 550 milhões sob gestão, lançou ainda um fundo de special sits

Abaixo, os principais trechos da conversa. 

O Ibovespa subiu mais de 40% em 12 meses. Como o fundo está posicionado depois dessa alta e tendo em vista o ano eleitoral?

Os investidores estavam bastante pessimistas no começo de 2025. O pessimismo diminuiu, mas temos uma eleição à frente.
O grande desafio deste ano não é apenas gerar upside, mas atravessar a volatilidade – e a realização caso o candidato almejado pelo mercado não vença. 

O mercado torce por um resultado diferente, mas a verdade é que o incumbente tem chance de ganhar. A visão realista é que o presidente atual é forte, tem números relevantes de aprovação e intenção de voto e precisamos nos posicionar levando isso em conta.

A melhor assimetria que existe hoje no mercado é a NTN-B, que paga um juro real em torno de 7% a 8%. Não vejo espaço para ir para 9% ou 10%. Esse governo não tem disciplina fiscal, mas já sabemos até onde pode ir. Não acredito que vá piorar demais.

Mas não investimos em B. Nos nossos fundos, diante desse cenário, voltamos para o beabá de uma carteira formada principalmente por ações de bancos e utilities – que se segura se o presidente atual ganhar e valoriza se um candidato pró-responsabilidade fiscal vencer.

Também vemos oportunidades em ações de algumas redes de farmácias e incorporadoras voltadas para o segmento do Minha Casa, Minha Vida. 

Existe um vento a favor da Bolsa neste ano?

O Brasil é um país de juro estruturalmente alto. Precisamos lembrar disso, do poder atrativo da renda fixa. Nesse sentido, somos uma casa CDI+, que tem o objetivo de bater o CDI. 

Neste ano especificamente, mesmo que a Selic caia, continuará acima de dois dígitos, e isso não vai fazer o investidor sair correndo para a Bolsa.

Nossa estratégia é gerar valor em diferentes cenários, de alta e baixa do mercado. Quando há muito otimismo, operamos short. No pessimismo, compramos mais. Vamos ajustando de acordo com os ciclos.

Essa alta recente criou oportunidades para operações short?

É difícil fazer short no Brasil, mas gosto muito. Monto essas operações quando vejo problemas na geração de caixa. 

Em geral, são empresas alavancadas em que o resultado operacional não conversa com o caixa. O Ebitda, por diferentes razões, pode parecer ok, mas a companhia queima caixa.

Hoje, mesmo depois desse rali dos últimos meses, está difícil encontrar bons shorts. Não vejo aquela exuberância. Tenho algumas operações no segmento de varejo, de empresas endividadas.  

Ou seja, não há um viés muito claro pra compra nem pra venda. E as arbitragens, que geraram bons retornos em 2025? 

Os fechamentos de capital na B3 nos últimos anos geraram ótimas oportunidades.

O que fazemos é estudar as condições dessas operações para ganhar com as ineficiências de mercado. 

Em alguns casos, compramos os papéis de investidores que, por regulamento, precisam vender antes da OPA.

No caso do Carrefour, que ofereceu três opções de pagamento aos acionistas, numa combinação entre dinheiro e ações no Brasil e na França, acompanhamos as variações de preço das ações e do câmbio diariamente, arbitrando o spread que havia se formado entre as opções ao longo do primeiro semestre de 2025. Isso gerou um retorno adicional de 1% na cota entre fevereiro e junho de 2025.

Outro exemplo, não relacionado a fechamento de capital, é o das Casas Bahia, que converteu parte de suas debêntures no final de 2025. Compramos esses papéis, que estavam sendo negociados a 30% do valor de face, convertemos em ações e ganhamos dinheiro.

Achamos essas oportunidades fazendo muita pesquisa, estudando operações, monitorando preços às vezes diariamente. Somos mais pedreiros do que arquitetos.

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