É raro a adaptação de um livro para o audiovisual conservar a poesia do seu original – mas este feito felizmente acontece em O Filho de Mil Homens, protagonizado por Rodrigo Santoro e disponível na Netflix.
A ótima versão do romance do escritor português Valter Hugo Mãe, realizada pelo cineasta Daniel Rezende, traduz em belas imagens o lirismo de diversos personagens envolvidos pelo sentimento de inadequação.
Rodado em Búzios e na Chapada Diamantina, o longa-metragem é ambientado em uma vila à beira-mar em uma época não especificada. Por lá mora o pescador Crisóstomo (interpretado por Santoro), um homem calado e solitário, que, aos 40 anos, se afunda na tristeza por não ter tido um filho.
A chegada do órfão Camilo (papel do menino Miguel Martines) proporciona uma felicidade desconhecida em sua rotina e faz Crisóstomo se abrir para experiências ao lado do garoto e de outras pessoas com quem passa a conviver.
Aos poucos são apresentados os habitantes do povoado, seres estranhos naquele universo e observados com preconceito pelos outros. Uma delas é Francisca (representada por Juliana Caldas), moça que vive com o nanismo e, para a inveja das vizinhas, não adormece a sexualidade, tanto que engravida.
Antonino (papel de Johnny Massaro), um homossexual repudiado pela mãe religiosa (a atriz Inez Vianna), se mostra incapaz de se expressar diante dos outros e, por fim, Isaura (vivida por Rebeca Jamir), é a moça que perde a virgindade e se vê desprezada pelos pais (Grace Passô e Carlos Francisco).
Nesta teia, os quatro núcleos se entrelaçam em uma discussão sobre a quebra de convenções e a possibilidade de formar novos conceitos de família através do afeto.
Assim como Hugo Mãe em seu livro, Rezende elimina a noção de pressa para o espectador se apegar aos personagens – algo atípico no audiovisual e frequente empecilho para adaptações literárias.
Os movimentos de câmera são lentos, as cenas, longas, e a fotografia de uma rara beleza que fortalece o clima onírico. Os diálogos, porém, são diretos, e o roteiro encaixa as situações com clareza sem menosprezar a compreensão do público diante das recorrentes metáforas.
Em um tempo em que filmes e espetáculos abordam as chamadas ‘pautas urgentes’ com um tom excessivamente discursivo e ideológico, O Filho de Mil Homens prova que é possível tratar de questões de identidade, gênero e aceitação através de uma linguagem delicada e poética.
O grande mote é a desconstrução do patriarcado e a reinvenção da masculinidade. Todos os personagens carregam históricos pouco convencionais e se veem diante de desafios em busca do acolhimento. A infância de Crisóstomo, mesmo não explicitada, é sugerida, Matilde, a mãe de Antonino, criou o filho sozinha e o casal Alfredo e Carminda (vividos por Marcello Escorel e Tuna Dwek), responsável por Camilo nos primeiros anos, esconde segredos que, apesar do elevado grau intelectual, não os libera do conservadorismo.
A temática familiar é recorrente na obra de Hugo Mãe, e pelo menos dois de seus livros enfocam relacionamentos delicados entre irmãos, A Desumanização (2013) e Deus na Escuridão (2024). Em O Filho de Mil Homens, lançado em 2011, porém, o autor se aprofundou em uma construção filosófica para questionar o senso comum.
Daniel Rezende é um cineasta eclético. Ganhou reconhecimento como montador dos filmes Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007) e assinou como diretor Bingo: O Rei das Manhãs (2017), livremente inspirado na biografia do palhaço Bozo, e dois longas e uma série de TV baseados nos personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa.
A intimidade com o universo das crianças deve ter somado para a sensível condução de O Filho de Mil Homens. Os principais personagens têm um jeito infantil e ingênuo – nunca bobos – muito bem demarcado pelos atores e atrizes, o que alimenta o tom fantasioso.
Rodrigo Santoro é um intérprete de visível amadurecimento a cada trabalho e, mesmo que aqui ele conte com uma forte caracterização, o seu convencimento se dá pela interiorização.
O mesmo pode ser dito de Johnny Massaro, com o olhar perdido de Antonino, que se transforma à medida em que conquista a confiança de Isaura, personagem que passa por uma evolução bem desenhada pela atriz Rebeca Jamir.
As atrizes Juliana Caldas, Grace Passô e Tuna Duek sublinham com as sutilezas de interpretação os registros próximos ao realismo fantástico e, na pele do menino Camilo, Miguel Martines se revela um talento promissor.
O Filho de Mil Homens é um grande destaque de um ano relevante para o cinema brasileiro. Em uma safra liderada por O Último Azul, de Gabriel Mascaro, Homem com H, de Esmir Filho, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, o longa não é menos importante por ganhar projeção no streaming.
Ao contrário, deve ser reconhecido por investir na poesia, em um ritmo lento e em uma narrativa cheia de silêncios incomuns no audiovisual. Por esta diferença – a de se assumir como uma fábula humana ao invés de um drama social – O Filho de Mil Homens atinge imenso valor e caráter atemporal.
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